"Com-Sentir", 2015

Pensamento e Prática da Arte Actual
Estudos Artísticos - Estudos Curadoriais e Museológicos
1º Semestre - 15/16
FBAUP
Rebecca Leal Moradalizadeh

Título: "Com-Sentir", 2015
Meio: Vídeo (instalação)
Duração: 15 min aprox. (loop)

O projecto “Com-Sentir”  surge a partir dos tópicos propostos na disciplina de PPAA.
Dois dos interesses principais que surgiram debruçam-se respectivamente sobre o texto "O Amigo" de Agamben, e por efeito, a relação entre Hélio Oiticia e Lygia Clark com a troca das suas cartas.

Agamben analisa principalmente o "tratado" da amizade de Aristóteles, que nos diz que o ser humano, tem como propósito a existência, que se define através do sentir e pensar; é algo desejável que nos cria sensações boas; é doce. Estas sensações são alvo de partilha com o "Amigo", que também partilha o mesmo significado de existência.  
O "Amigo" torna-se num outro si mesmo - heteros autos. (heteros - opostos; autos - si mesmo); "não é um outro eu, mas uma "mesmidade", um tornar-se outro do mesmo" (Agamben, 2009, p. 90)
O Amigo "com-sente", entra em convívio e troca de pensamentos e acções. "Os amigos (...) são com-divididos pela experiência da amizade. A amizade é a condivisão que precede toda divisão, porque aquilo que há para repartir é o próprio fato de existir, a própria vida." (Agamben, 2009, p. 92)
Define-se então a amizade que se torna a política principal de uma comunidade.

Relativamente a Hélio Oiticia e Lygia Clark e a troca das suas cartas, interessaram-me os relatos que debatiam da actualidade (1964-1974) que cada um presenciava, a partir de locais distintos (Brasil e Paris), como também a troca de informação e pensamentos sobre as suas e outras práticas artísticas que decorriam nesse mesmo meio.

"Outras terras, outras gentes. Novas experiências sensíveis e intelectuais no além-mar. Como não querer, naquele momento decisivo da vida profissional, compartilhar com amigos as sensações diante do novo? Emoções, sonhos, aprendizagem, delírios, decepções, angústias e desesperos? Viver no deslocamento pela viagem, ao sabor da instabilidade da água oceano." (Lygia Clark . Hélio Oiticica
Cartas, 1964- 1974)

Com base nesta informação, decidi conjugar tanto a minha formação inicial de artista plástica, com a de curadoria, (área de estudo em mestrado), para intervir na proposta.

Pegando na ideia base «Actualidade Vs Prática Artística», e a questão da amizade, escolhi quatro artistas, amigos próximos, - (neste caso três artistas plásticos, e um realizador), com quem "com-sinto" bons pensamentos e boas práticas, - que pensassem e confrontassem uma realidade com a outra, chegando ao ponto de criar um ciclo de pensamentos em torno desta ideia, isto é, pensar até que ponto a Actualidade em que vivem, influencia as suas próprias Práticas Artísticas e por sua vez, as suas práticas poderão contribuir de novo para a Actualidade.

Em termos práticos esta proposta é apresentada em quatro vídeos, feitos aos artistas, recolhidos em locais escolhidos pelos próprios. Não são entrevistas, são diálogos, e troca de ideias. Pedi-lhes que tivessem em consideração que esta proposta poderia ser vista também como um trabalho/prática deles; o diálogo de cada um pode ser performativo, activo, interventivo.
Após essa recolha, os vídeos seriam hipoteticamente apresentados em forma de vídeo-projecçao-instalação, onde cada um deles estaria a compartilhar os seus pensamentos e acções, com os outros em redor, num espaço em comum.
A intervenção final feita por mim foi realçar em certos pontos do vídeo, os discursos de cada um deles, uma vez que aquilo que ouvimos são vozes sobrepostas e em certos momentos realçar as vozes dando a oportunidade/consentimento de se expressarem consoante o seu discurso.

Os vídeos e apresentação dos vídeos finais, são apenas um protótipo (algo provisório para a disciplina) de um trabalho que virá a ser realizado com mais tempo e condições técnicas apropriadas que estão em falta.


















Fig.1- Anotações/ideias para o projecto










Fig.2 - Ciclo de pensamentos









Vídeo: "Com-sentir" 
(link na imagem)








Artistas / Citações das filmagens:



« Por ter nascido com uma vagina e por esse simples facto ter visto a minha sexualidade reprimida ao longo da minha vida;
Por ter sido educada à luz dos ensinamentos religiosos que tendem a suprimir os instintos sexuais e desejos sexuais;
Por continuar a deparar-me frequentemente com comportamentos sociais e familiares que reforçam a desigualdade e a injustiça;
Contra qualquer tipo de discriminação e contra os valores morais que desprivilegiam certos grupos em prol de outros;
E em louvor de todas aquelas pessoas que ao longo da história se mantiveram firmes e apresentaram forças de resistência ao sistema;
E em louvor de todas aquelas pessoas que ao longo da história se mantiveram firmes e apresentaram forças de resistência ao sistema;»

Helena Ferreira, WC Plaza, Porto, Dezembro 2015
Artista Plástica, Porto
http://cargocollective.com/helenammferreira


«A minha opinião é que a prática artística deveria ter um papel mais activo nos assuntos da sociedade em geral, assuntos que cabem a uma maioria e não minoria; penso que uma arte que se fecha em si mesma e que seja trabalhada e falada e apreciada entre uma elite, a meu ver é uma arte menor, porque somos uma sociedade, e sendo uma sociedade creio que todos os assuntos são importantes a toda a gente. Devíamos partilhar muito mais os assuntos dos outros e os nossos assuntos com os outros. Porque no fundo estamos dependentes todos uns dos outros. 'Posso ser uma pessoa com grandes posses materiais', mas sei que estou dependente daquele que provavelmente tem muito menos posses ou que até não tem posses. Vivemos numa rede de troca de tarefas, de funções, somos uma grande máquina. E a arte está no meio disto tudo. A arte faz parte dessa troca, um meio de comunicação, e como tal fechar a arte para o interesse particular não faz muito sentido. Sou defensor de uma arte para o povo, do povo e pelo povo. (…) O artista devia-se integrar mais nas comunidades, trabalhar com essas mesmas comunidades, sobre os assuntos que preocupam essas comunidades, tanto pode ser em bairros, aldeias, comunidades maiores ou pequenas, mas que se integrem nos assuntos não só na sua própria vida e sair um pouco do campo do ‘eu’, e ir para o campo do interesse comum. Ou tentar integrar o meu interesse pessoal pelo interesse comum, ou o interesse comum pelo meu interesse pessoal.»
João Costa, Parque de S. Roque, Porto, Dezembro 2015
Artista Plástico (Escultura), Porto
https://www.facebook.com/Lumo-Turo-357953164306720/?fref=ts



« Há uma frase de Marx e Engels escrita no manifesto comunista que é: “tudo o que é sólido desmancha no ar”; (…) esta frase caracteriza bem a sociedade dos nossos dias; não é por acaso que o Lipovetsky escreve “A era do vazio” e Bauman escreve o “Mundo Líquido”. O mundo líquido é algo intermediário entre o sólido e o ar; esta sociedade aspira ao aéreo mas não sabe como se colocar. Mantendo algumas estruturas e características do que o antecede e mantendo algumas ideias cristalizadas ao mesmo tempo revolta-se contra essas ideias e procura renovar-se. Nega ideias como a verdade, como Deus, revolta-se contra as instituições, é típica de uma sociedade revolucionária.
Na última exposição que fiz, que se chamava “O Esquecimento de Deus”, tratei dessa questão do esquecimento de deus, deus como um valor moral, e a sociedade como ausente desses valores; a exposição pegava em imagens onde eu encontrava essa relação entre a vida quotidiana e o divino, ou uma aspiração ao divino e o inverso; o divino que também se pode aproximar do quotidiano. Agora mais recentemente o meu trabalho tem-se focado em cenas interiores, em cenas familiares, e as personagens ganham o carácter do absurdo; em algumas pinturas parece que vagueiam pela casa, parecem que não conseguem comunicar umas com as outras e esse tipo de relações eu depois também trago para as minhas ideias de actualidade. »
Ludgero Almeida, São Paulo, (Actualmente vive no Brasil), Dezembro 2015
Artista Plástico (Pintura), Guimarães
http://dludgero.wix.com/ludgeroalmeida



« Quando olhas à tua volta e como alguém que quer criar, como alguém que quer comunicar alguma coisa com alguém, no meu caso através de imagens, seja em movimento ou fotografia, para mim, (…) como criador, ou como alguém que quer criar, é inevitável pensar de que forma é que posso fazê-lo e alertando para aspectos que acho que devem ser realçados.(…)
Iterance, em que o que eu acabei por constatar num estado mais avançado do projecto, foi tratar a crise através de imagens de ruinas; questões da memória; o princípio base do filme bate numa experiencia estética, sempre gostei de fotografar ruínas, locais abandonados, destruição; tem uma espécie de atracção, mas quando comecei a relacionar isso com a crise actual, e por sugestão de um amigo meu, filmar lá fora, em Berlim, (…) verifica-se que montes desses sítios tem haver com a 2ª guerra, e querendo eu à partida fazer algo em torno da crise actual (…), acabas por encontrar semelhanças; entre a crise actual e a crise que antecede a 2ª guerra, a grande depressão dos anos 20/30 na Alemanha e em toda a Europa.
E eu ao procurar testemunhos actuais, testemunhos de pessoas que tenham vivido nos anos 20 na Alemanha, é impressionante a quantidade de palavras-chave que são transversais: austeridade, medo, incerteza, desemprego e fome, eram a realidade dos anos 20 e é a realidade de muitos países da Europa e do mundo. Quis através do filme denunciar isso. »
Sérgio Miguel Silva, Porto, Dezembro 2015


Créditos:
Conceito, Filmagens e edição final: Rebecca Moradalizadeh;
com excepção do vídeo de Ludgero Almeida, captado no Brasil por Raúl Fernandes

"Dessa maneira, a arte pode ser pensada como produtora de um saber prático que antes de mais nada é também uma maneira de pensar relações de poder." (Agamben, 2009, p.18)

Os meus maiores e sinceros agradecimentos aos intervenientes desta proposta.
Rebecca Moradalizadeh